Tempo
Feito pássaro
Por aqui
Passará...
A tempo
De ter certeza
Sem alarde
Sendo leve
O vento levará...
...não minha senhora, eu só entrego cartas. Que importa, um poema, antes de tudo com selo e sem remetente, é uma carta. Assim, a maioria, entende minha missão, toma-te e nunca mais me tornará a vê-la. Confesso que mais me aprazava quando iam dentro das garrafas em mar aberto, acontece que nos dias de hoje, dessas só para as sereias. Nem recebo de volta, nunca erro o endereço, podia até errar o nome, de propósito, ao leres verá o teu próprio retrato, aposto, deitado nestas linhas. Sei que se mudara a pouco e és nova na vila, entenda, venho de longe. Pode. Rasgar amassar nem ler ou dar recebido, não precisa já disse. Também sequer escolhi ser carteiro, mas é meu destino, entregar cartas, jamais leio olho tomo partido, apenas cumpro conforme requerido. Pra quem trabalho? Olha minha farda, sou carteiro, saio por aí distribuindo as cartas que me vem a deveras quem. Ainda ontem estiva em Paris, atrás de uma atriz, prestes a estrear, e mesmo ali no palco a entreguei, ela chorou de amores, nos bastidores, já em cena parecia o protótipo script. Ah, nunca vistes a tinta nem os traços da minha pena, aliás, definitivamente não me conheces.
TRMO
Sentira o suar da seda e suas mãos sobre as minhas, os olhos alagados paralelos a estes que vos olhara absorto, no mais, a voz que quase lhes faltava dissera-me: resolve-te a vida, “e a minha também”, acho que pensara tão alto qual seu olhar procurando a lua tão bem murmurara. Despi-lhe a luva, ao abrir a mão dela, amarrei com cuidado nas linhas da tua palma meu coração, olhava-lha fixo, feito a força vazia que segura aquele quadro renascentista torto na parede. Já está resolvido. Contigo partirei “até não desistir o destino da gente” baixinho pensei, fechando de súbito os olhos para aquele abrir mórbido co'a força e lentidão que se assevera, mais perto dela, sentia o cheiro do perfume novo. Eis diante de mim o vulto a se ir sem dizer adeus. Acendi a luz, meu coração ao menos estava no lugar e com as mãos ainda suadas prometi: não mais sonhar!
Sono dos deuses
Dorme o amor
Às vezes numa
Fria madrugada
Anos depois acorda
Tateando no escuro
Paredes corredores
Móveis porta muro
Em braile o alfarrábio de cabeceira
Para os olhos não abrir
Mudaram tudo de lugar
Não se sabe se a casa
Ainda está lá
Na mesma rua
Mas deixaram
Que sorte
A borra do café
Um maço de cigarros
E um bilhete
Boa Noite
TRMO